Queimaram minhas agendas, mas a história permaneceu
Esta fotografia foi feita em 17 de agosto de 1986, dia do meu aniversário. Eu estava em Guarapari, no Espírito Santo, recebendo um presente e um cartão lindo.
Poucos meses antes, em abril, eu havia me tornado mãe. Estava de licença-maternidade, vivendo todas as mudanças que a chegada de uma filha provoca na vida de uma mulher. Mas minha história com a arte e a produção cultural já estava em movimento.
Naquele período, eu tinha em Belo Horizonte a produtora Arte e Moda e realizava produções locais. Em Guarapari, também havia criado um curso de teatro para crianças. Mesmo em um momento profundamente dedicado à maternidade, a arte, a educação e a vontade de criar caminhos continuavam presentes.
Quando olho para esta fotografia, vejo uma jovem mulher segurando um presente. Hoje, percebo que ela também segurava sonhos, responsabilidades e uma vida inteira ainda por construir.
Naquele tempo, grande parte da minha história cabia em agendas. Ali estavam nomes, telefones, reuniões, compromissos, ideias, projetos e encontros. Anos depois, essas agendas da década de 1980 foram queimadas. Perdi registros importantes, mas compreendi que uma trajetória também permanece nas pessoas, nas escolhas, no conhecimento adquirido e nas sementes que deixamos pelo caminho.
O que as agendas guardavam
Sempre tive diários e agendas. Comecei ainda muito jovem. Neles, eu guardava meus sonhos, poemas, telefones, endereços e também impressões sobre atitudes e encontros com amigos. Destacava com cores diferentes as frases que considerava importantes — aquelas que, de alguma maneira, pareciam indicar um caminho.
Fiz curso de datilografia em 1973 ou 1974, numa época em que registrar, organizar e escrever exigia outro ritmo. Ao longo dos anos, devo ter reunido entre dez e doze agendas. Mais que cadernos de compromissos, elas formavam uma espécie de mapa da minha vida.
Nas agendas profissionais, estavam sonhos que pareciam grandes demais para duas jovens produtoras ainda inexperientes. Alguns deles, porém, começaram a ganhar forma. Antes mesmo da fotografia de 1986, eu já havia empreendido em espetáculos de Francis Hime e Sivuca e em uma circulação instrumental de Fernando Moura e banda pelo interior de Minas Gerais. Na época, Fernando era tecladista de Francis Hime.
O espetáculo de Francis aconteceu no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte, na semana em que o Brasil recebeu a notícia da morte de Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985. Depois, seguimos por João Monlevade, Coronel Fabriciano, Governador Valadares e Teófilo Otoni. Foi uma aventura feita de ousadia, improvisação e muito aprendizado. Éramos duas jovens descobrindo, na prática, como transformar uma ideia artística em realidade.
Quando os registros viraram cinzas
Anos depois, fui até a garagem onde minha mãe guardava algumas de minhas coisas. Foi quando ela me contou, com toda a inocência de quem desejava apenas organizar o espaço:
“Joguei fora e queimei seus cadernos velhos.”
Eram minhas agendas.
Naquele instante, desapareceram registros que contavam parte importante da minha juventude, da minha vida profissional e dos primeiros sonhos que me conduziram até aqui. Deixei cair uma lágrima. Depois, como sempre faço diante das perdas, segui em frente.
As páginas viraram cinzas, mas aquilo que vivi permaneceu. Ficou em minha memória, nas pessoas que fizeram parte daqueles caminhos, nos projetos que mais tarde consegui realizar e na coragem que aprendi a carregar.
A história continua
Hoje compreendo que uma trajetória vai muito além dos documentos que conseguimos guardar. Ela permanece nos valores, nas relações construídas, no conhecimento adquirido e nas sementes que deixamos pelo caminho.
Quatro décadas depois, continuo acreditando na arte e na cultura como forças capazes de transformar vidas. Continuo aprendendo, criando projetos, desenvolvendo relações e procurando novos caminhos para aproximar artistas, empresas, instituições e territórios.
As agendas se perderam, mas a história continuou sendo escrita — nos projetos realizados, nas pessoas que caminharam comigo e na certeza de que a cultura transforma vidas.
